M!CporCoimbra

2007/01/26

"Notas Imperfeitas" - Crónica de José de Faria e Costa, O Primeiro de Janeiro, 06-01-2007


Presidente da Mesa da Assembleia Geral do MIC critica retorno a práticas da Idade Média

Uma das coisas mais importantes que a modernidade trouxe quando confrontada com o “ancien regime” (isto é, o regime medieval) foi o de acabar, julgava-se que para sempre, com o espectáculo degradante e inumano das execuções no pelourinho.

Já aqui falei — ver Notas do dia 11 de Novembro de 2006 — sobre a condenação à morte de Saddam Hussein. Todavia, o que se passou com a sua execução é tão grave que devo retornar ao tema.


Como disse e repito, Saddam foi um ditador sanguinário, para o qual todo o repúdio moral imaginável se concebia como pouco ou escasso. Que isso fique claro. Enquanto homem e político todo o meu desprezo e repulsa recaíam sobre ele. Só que sou contra a pena de morte. Mais. Sou contra o espectáculo deplorável, ignóbil, imoral e execrável que a execução da pena de morte propicia a este nosso tempo de voracidade insaciável por tudo o que é mórbido, bizarro e sujo. Em uma palavra: por tudo aquilo que toca o nosso lado mais negro e escuro. É, pois, sobre este ponto que deixarei cair algumas observações em jeito de notas.


A dignidade da pessoa humana ou o que ela possa representar como valor civilizacional impediam que o grotesco das execuções capitais ou de quaisquer outras fossem levadas a cabo dentro do mar insensato e rancoroso do gáudio estridente da populaça. Pois é. Esqueceu-se tudo isso e voltamos aos tempos da barbárie. Mais. Não só se esqueceu como parece que, intencionalmente, se quis recuperar tais práticas. O que é demonstrativo de muitas coisas. Tentemos mostrar só algumas deste retorno despudorado às práticas comportamentais da alta Idade Média.


A primeira é a de que a história — como se não o soubéssemos já e ao arrepio da crença ingénua do Iluminismo — tem refluxos. Refluxos que, não poucas vezes, fazem o pensamento recuar centenas de anos.
A segunda nota que queremos deixar é a de a sofreguidão com que os meios de comunicação social acompanharam a execução (há aqui um surplus de nojo, porquanto ao lado da versão oficial, em imagem, da execução, miraculosamente, apareceu uma outra versão, bem mais “picante” que, diz-se, foi feita com um telemóvel) deixa muito a desejar sobre a tão apregoada superioridade moral do nosso mundo.

É isto que podemos dar? É isto que — baseados, é evidente, no intocável direito de informar e de liberdade de expressão — temos para oferecer, como ponte dourada, para que os “outros” acolham o nosso modelo de vida? É a morte, o espectáculo da morte, feito pelo poder, pelos vencedores, que podemos oferecer? É a glória dos vencedores que gritam, agora, quando antes eram seus cúmplices, que “Justiça foi feita”, que podemos levar, como penhor, ao altar da deusa Dike, a deusa da Justiça dos homens? É esta satisfação dos instintos mais primários dos homens e das mulheres que, contrariamente a qualquer juízo de justeza racional retributiva, se pode dizer ser o melhor de nós mesmos? Porquê toda esta humilhação? Humilhação, diga se, entre parêntesis, que já acontecera quando fizeram passar ad nauseam a imagem do ditador, depois de ter sido capturado, a ser examinado na cavidade bocal, como se fosse um animal.
Porquê?

Não há explicação. Ou talvez haja. É o puro sono da razão. Aquele sono que nas belas gravuras de Goya só é capaz de criar monstros. É isso que estamos a viver. A viver um retrocesso epocal, com várias refracções, das quais a moral não é a menos importante. Será que é assim tão difícil perceber que mesmo de um ponto de vista estritamente egoísta, que mesmo de um ponto de vista prosaicamente utilitarista, aquelas imagens de pelourinho — agora absolutamente globalizadas — vão causar, infinitamente, mais danos que benefícios?