M!CporCoimbra

2007/12/28

Uma estranha concepção de política cultural


Elísio Estanque - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Em dois artigos que publiquei neste blogue e no Diário de Coimbra no passado mês de Setembro (dias 7 e 14/09/04) questionei a concepção paroquial e “folclórica” de cultura que tem prevalecido em Coimbra, que vê o povo como uma entidade mítica, exótica e ordeira, em permanente devoção e em alegre divertimento. Considerei então que não tem sentido uma divisão rígida entre cultura para o “povo” e cultura para as “elites”, a qual só pode servir para justificar a falta de apoios a iniciativas culturais de elevada qualidade, que se destinam a todos e não apenas às supostas elites. Por casualidade encontrei recentemente o Sr. Vereador da cultura da CMC, que me fez saber o quanto tinha apreciado os meus textos e me incentivou a continuar. Pois bem, procurando ser agora mais concreto, vejamos alguns exemplos do que tem sido, nos últimos tempos, o resultado da política cultural da CMC, marcada pela falta de visão estratégica e pela hostilização dos principais agentes e projectos culturais da cidade.

1. No Verão passado, o projecto de formação “Tchékhov em um acto”, dinamizado pela Escola da Noite, envolveu vários grupos de teatro amador (com peças exibidas em diversas localidades da região), e culminou com um espectáculo público conjunto, apresentado na Abrunheira (“A Boda”). Tive o privilégio de assistir à referida peça do dramaturgo russo, cujo sucesso obrigou a um espectáculo extra. Foi comovente ver o povo estender colchas nas janelas à passagem do desfile inicial dos “noivos”, bem como a presença de gente de todas as idades que lotou a Casa do Povo local. Este projecto foi organizado pela Direcção Regional de Cultura do Centro (DRCC), com o apoio da Região de Turismo do Centro, do INATEL e de diversas Câmaras Municipais (Figueira da Foz, Montemor-o-Velho e Gouveia), que apoiaram os grupos dos seus concelhos. Por incrível que pareça, a CMC foi a única que recusou o apoio ao Grupo de Taveiro (que assim não pôde acolher os seus congéneres). Porquê? Primeiro, a CMC alegou dificuldades financeiras (o financiamento pedido era de 1.200 €), depois, o próprio Presidente afirmou publicamente que não reconhecia competência à “Escola da Noite” para dar formação a grupos de amadores e que esta pretendia “tutelar” os grupos e fazer a sua “revolução cultural”. Na mesma linha se coloca o caso do Teatro da Cerca de São Bernardo, que continua sem abrir oficialmente e sem cumprir o fim para o qual foi construído: alojar A Escola da Noite. A CMC está a propor ao grupo condições de tal maneira insustentáveis (como suportar a totalidade dos custos de manutenção) que mais parece pretender apenas um pretexto para protelar ou inviabilizar a resolução do problema. Pergunta-se: Um investimento desta importância para a cidade e que envolveu elevados custos ao Estado pode correr o risco de ser esbanjado?

2. O Teatro Académico Gil Vicente tem sido, como se sabe, o principal espaço de eventos culturais de qualidade da cidade e, embora ligado à Universidade e por ela apoiado, tem dependido parcialmente dos apoios camarários. Porém, a última proposta da CMC de renegociação do protocolo de apoio foi considerada tão humilhante para a Universidade que o Magnífico Reitor se viu obrigado a recusar a sua renovação. A CMC deixou, assim, de apoiar a actividade da mais importante e mais prestigiada sala de espectáculos da cidade, o que é tanto mais grave quanto a cidade continua sem nenhuma outra alternativa para espectáculos de média dimensão.

3. O Centro de Artes Visuais – mais uma promessa frustrada – foi abandonado à sua sorte e entregue exclusivamente ao financiamento do Ministério da Cultura, quando deveria ser um dos maiores motivos de orgulho para a cidade. Para além da importância dos Encontros de Fotografia, que foi um evento ímpar no campo das artes visuais em Portugal, a recuperação do edifício do Colégio das Artes (da autoria de João Mendes Ribeiro) é uma referência internacional do ponto de vista arquitectónico. Assim, o CAV tem vindo a definhar, trabalhando muitíssimo aquém das potencialidades e limitando-se a tentar sobreviver.

Em suma, o que se pode retirar destes exemplos é a persistência de uma visão distorcida e anacrónica do papel da cultura na vida da cidade – que se quer moderna, cosmopolita e com capacidade de projectar para o exterior as suas potencialidades criativas –, que usa o eterno “pão e circo” contra a criatividade cultural, que é preconceituosa e politicamente facciosa, e que escolhe as entidades que apoia na base de critérios, no mínimo, duvidosos. Note-se, por exemplo, que o agente cultural mais apoiado pela Câmara Municipal em 2007 (a Orquestra Clássica do Centro) é o mesmo que organiza “concertos prestígio” destinados a homenagear várias personalidades da cidade, incluindo o próprio presidente da câmara e o próprio vereador da cultura, que não se fazem rogados a este tipo de auto-elogio.

As festas tradicionais, o artesanato, os grupos folclóricos, os museus e as restantes formas de expressão cultural e musical mais convencionais merecem, sem dúvida, o maior respeito. Mas, em face do acima exposto, pergunta-se ao Sr. Vereador e sobretudo ao Sr. Presidente: não é importante o apoio a dois centros culturais de excelência como o TAGV e o CAV? Não são eles elementos vitais da vida cultural de Coimbra e não são eles cartões de visita e de promoção da cidade? Não se deve apoiar uma companhia de teatro que, para além do serviço público directamente associado à sua actividade principal, desenvolve um fantástico trabalho de formação junto das Escolas e de grupos amadores de teatro? Quem poderá ainda acreditar que esta estranha concepção de política cultural pode mudar com o actual poder municipal?
Diário de Coimbra, 27/12/2007