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2008/03/30

Carvalho da Silva: "Diabolização" do sindicalismo é "erro estratégico"

30.03.2008 - 10h19
Por Lusa
Hugo Calçado/PÚBLICO
O líder da CGTP falou durante um debate sobre o Livro Branco das Relações Laborais
O líder da CGTP defendeu ontem, no Porto, que a "diabolização" do sindicalismo é um "erro estratégico profundo", considerando "impensável" obter um quadro de relações laborais eficaz numa "lógica de combate ao sindicalismo e às organizações dos trabalhadores".

"Um debate profundo para produzir efeitos de mudança na sociedade portuguesa só pode ser feito directamente com os actores que existem e estão no terreno, tem de ser feito com os sindicatos e com os patrões. Custe o que custar mas é por ai", disse Carvalho da Silva.

O líder da CGTP falava durante um debate sobre o "Livro Branco das Relações Laborais", organizado pela Federação Distrital do PS/Porto, que contou também com a participação do líder da UGT, João Proença, e de um representante da Confederação da Industria Portuguesa (CIP), Rocha Novo.

"Ao discutir as leis laborais, não podemos deixar de constatar que os trabalhadores vêm sendo profundamente penalizados, com mais desemprego, com o aumento acelerado de precariedade e com mais rupturas de solidariedade", acrescentou Carvalho da Silva, referindo, em concreto, o caso dos professores.

Segundo o líder da CGTP, "temos de ter a noção de que os professores mais jovens já têm adquirido uma coisa, vão ganhar menos um terço do que ganhavam os mais velhos para as mesmas funções e exigências".

Num debate em que foram apresentadas as posições das organizações presentes sobre o "livro Branco das Relações Laborais", o representante da CIP, Rocha Novo, defendeu que "a renovação dos quadros das empresas é uma necessidade que deve ser encarada de frente".

Considerou que "a renovação do quadro das empresas não pode ser cega, nem feita de qualquer maneira, mas um emprego tem de pressupor ajustamento ao posto de trabalho e empenhamento do trabalhador", disse.

"Altos dirigentes deste país têm defendido que Portugal não pode estar votado ao pessimismo, que tem de ser mais ambicioso, mas só podemos encarar esse cenário se porventura dispusermos de soluções que nos permitam deitar mão a tudo aquilo que de melhor temos", acrescentou.

Quanto à exclusividade das estruturas sindicais na legitimidade para a negociação colectiva, Rocha Novo propôs que os contratos colectivos de trabalho devem poder ser celebrados com outras organizações, como as comissões de trabalhadores.

Defendeu ainda uma "adequada definição do direito à greve".

João Proença, líder da UGT, último a intervir no debate, criticou o facto do Livro Branco ser omisso em matérias essenciais como o reforço da negociação colectiva.

Defendeu que "a flexibilidade nunca se obtém pela via da flexibilidade individual ou pela precariedade, mas sim por via da negociação colectiva".

Segundo João Proença, a Comissão do Livro Branco (CLB) desvaloriza a negociação colectiva, tendo em conta que coloca um forte acento na individualização das relações de trabalho, o que contribuirá para um agravamento dos desequilíbrios que actualmente já se verificam.

Além disso, acrescentou "assume uma postura anti-sindical", exemplificando com o facto de propor a concentração das competências dos representantes para a segurança e higiene no trabalho nas comissões dos trabalhadores.

2008/03/27

Muita política e pouca economia na descida do IVA

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O maior mérito desta redução fiscal está na sua irrelevância económica

[Paulo Ferreira, Público.pt, 27-03-2008]

Por um momento, todos têm pelo menos uma parte da razão. Começa por tê-la o Governo, quando diz que com a descida do IVA "os portugueses vêem premiado o seu esforço"; tem o PSD, quando afirma que a decisão "não tem nenhum
impacto sério" na economia; tem o PCP, que se antecipou e fez esta mesma proposta para o Orçamento do Estado deste ano; têm o CDS-PP, o Bloco de Esquerda e a Deco, quando alertam para o risco de esta descida de IVA ficar nas empresas e não passar para os consumidores; tem Rocha de Matos ao afirmar que este é um "sinal de outras descidas de impostos"; têm razão os técnicos de contas para aplaudir a decisão, porque se há sector de actividade que sai a ganhar, é o dos consultores fiscais e contabilísticos que vão ajudar as empresas a fazer as adaptações necessárias; e tem a generalidade dos que ontem comentaram a medida anunciada por José Sócrates e Teixeira dos Santos, independentemente de a terem achado excessiva, tímida ou simplesmente irrelevante.

Pode parecer contraditório, mas a descida da taxa do IVA de 21 para 20 por cento a partir de Julho é tudo isso ao mesmo tempo.

Expliquemos. Baixar o IVA em um ponto percentual não terá um impacto económico visível. A generalidade dos preços dificilmente baixará - recordemos a recente baixa do IVA dos ginásios de 21 para 5 por cento e a forma como as empresas do sector aumentaram de forma indecorosa a sua margem de lucro; ou a descida do IVA da restauração de 17 para 12 por cento decidida por António Guterres e o modo como os preços finais não baixaram para os consumidores. Não sentindo poupanças, os consumidores não irão consumir mais. Não virá daqui, por isso, qualquer estímulo económico de que se dê conta.

Para produzir algum impacto económico - ficando o dinheiro nos bolsos dos consumidores ou nas caixas registadoras das empresas - uma redução de impostos tem que ter uma amplitude assinalável, coisa que esta manifestamente não tem.

Devia então o Governo ter isso mais longe? De forma alguma. A perda de cerca de 500 milhões de euros por ano de receitas fiscais já é, nos tempos que correm, um passo arriscado, mesmo depois de atingidos os 2,6 por cento de défice ontem anunciados. A "crise orçamental", entendida como situação de emergência das contas públicas, está certamente ultrapassada. Mas daqui até atingirmos uma situação orçamental consolidada e à prova de asneira ou de tentações eleitorais ou populistas ainda vai um grande passo. Por isso é que muitos economistas
têm alertado para o risco de uma descida de impostos precoce, que pode deitar a perder o esforço já pedido aos contribuintes, eternizando o problema.

Esta é uma medida que tem na sua irrelevância económica o maior mérito. A relativa prudência orçamental que lhe está implícita - Sócrates disse que seria "irresponsável e imprudente" repor o IVA nos 19 por cento em que o encontrou quando chegou ao Governo - só acontece porque não se caiu na tentação de promover um estímulo económico por via fiscal. Esta não é, por isso, uma medida de política fiscal ou de política económica. É antes uma medida de marketing político. É um "sinal aos portugueses", como ontem disse Teixeira dos Santos. Um sinal de que o Governo tem planeadas outras descidas de impostos nos próximos meses e que as fará se a trajectória de redução do défice continuar a correr melhor do que esperado, independentemente da maior ou menor consolidação das contas do Estado. E, sobretudo, o tal sinal que premeia o esforço feito nos últimos anos. Um esforço que foi pedido sobretudo aos contribuintes, que são os verdadeiros heróis da descida do défice. Entre aumentos de taxas de impostos e acções legítimas e ilegítimas da máquina fiscal para arrecadar mais receita, foi deles o maior esforço para se chegar ao défice de 2,6 por cento.

Ao contrário do que possa parecer, ontem estivemos a falar muito pouco de economia e quase tudo de táctica política. Não deixa de ser um prémio à mestria de Teixeira dos Santos, que se revelou uma autêntica bênção para Sócrates.

Comissão de inquérito a infecção no Hospital dos Covões detectou muitas deficiências

(27.03.2008, Alexandra Campos, no PÚBLICO)

Primeiro dos 17 doentes operados às cataratas tinha uma úlcera numa perna. Um deles ficou cego de um olho
A comissão de inquérito que investigou a infecção que afectou cinco doentes operados às cataratas no Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) - um dos quais acabou por ficar cego de um olho, em Setembro passado - detectou muitas deficiências e concluiu que as condições físicas do pré e do pós-operatório eram "precárias e inadequadas". Deficiências que, segundo a comissão, podem ter estado na origem da contaminação.
Um dos problemas enumerados tem que ver com a utilização dos mesmos colírios (em vezes de doses individuais) nos 17 doentes operados às cataratas, uns a seguir aos outros (entre as 8h30 e as 16h05 do dia 15 de Setembro de 2007), no Hospital dos Covões. Cinco acabariam por ficar contaminados com uma bactéria - em três dos casos apurou-se que se tratava da pseudomonas aeruginosa. A mesma bactéria, ainda que de uma estirpe diferente, foi encontrada posteriormente numa úlcera do primeiro doente a entrar no bloco operatório. "Há uma probabilidade, não desprezível, da contaminação ter sido provocada por um agente infeccioso alojado na úlcera da perna direita do primeiro doente intervencionado", defende a comissão, pondo em causa o ordenamento da entrada dos pacientes no bloco.
O grupo de trabalho nomeado pelo conselho de administração do hospital concluiu ainda que a infecção pode estar associada às deficientes condições da preparação pré-operatória do serviço de oftalmologia - "proximidade excessiva dos doentes, condições físicas precárias e inadequadas, utilização dos mesmos colírios em todos os doentes", entre outras. Também a entrada no bloco operatório se fez de forma "muito pouco recomendável", porque o dispositivo mecânico de transferência de doentes (transfer) estava avariado, lê-se no relatório, que acrescenta que o pós-operatório apresentava igualmente condições deficientes, devido à sua "exiguidade".
O documento acaba de ser enviado ao deputado do Bloco de Esquerda João Semedo, que o requereu em Outubro do ano passado, depois de o presidente do conselho de administração do CHC ter considerado que era "inconclusivo". Em comunicado, Rui Pato afirmava então que o relatório, "embora exaustivo, não é conclusivo, dadas as dificuldades de a posteriori se avaliarem os procedimentos do acto operatório".
João Semedo defende, porém, que este relatório "revela com nitidez que houve precipitação na avaliação clínica de um doente infectado com uma úlcera". Mas o que o deputado considera "particularmente grave" é a utilização de colírios e desinfectantes sem ser em monodose, "por razões de poupança". "Este relatório deve servir como alerta para os responsáveis hospitalares não se deixarem condicionar por políticas de cortes orçamentais", remata.
Para além das deficiências referidas, a comissão de inquérito detectou ainda diversas "inconformidades e inconsistências" nos processos clínicos, como a ausência de consentimento informado e a não realização de consultas de anestesia.
Face ao cenário encontrado, o grupo de trabalho fez uma série de recomendações, nomeadamente a definição de um número máximo de doentes a operar em cada sessão, tendo em conta os recursos humanos e materiais existentes, e a utilização de colírios e outros solutos apenas em dose individual.
O relatório da comissão fala em "proximidade excessiva dos doentes, condições físicas precárias e inadequadas".

2008/03/22

Desempregados com subsídio social sobem 23%



MANUEL ESTEVES
RUI COUTINHO -ARQUIVO DN
( hoje no DN )
É cada vez maior o número de de-sempregados que vive apenas com o subsídio social de desemprego, uma prestação destinada a situações de emergência económica. Segundo o Instituto de Informática da Segurança Social, havia, em Fevereiro, 44 mil pessoas a receber o subsídio social de desemprego inicial, mais 23% do que no mesmo mês do ano anterior.

Este aumento reflecte a subida em flecha dos pedidos deste tipo de prestação social: nos últimos 12 meses (de Março de 2007 a Fevereiro de 2008), a Segurança Social respondeu positivamente a cerca de 59 mil requerimentos de desempregados, sensivelmente o dobro do número verificado no período homólogo.

O aumento do recurso a este tipo de prestação acontece numa altura em que diminui substancialmente o número de pessoas que recebe subsídio de desemprego "normal" e em que os pedidos desta prestação caem sustentadamente. Em Fevereiro, havia 175 mil pessoas a receber subsídio de desemprego "normal", menos 20% do que no mesmo mês de 2007. Coerentemente, o número de novos subsídio "normais" atribuídos pela Segurança Social nos últimos 12 meses caiu 27%.

Quem são eles?

Os beneficiários que recebem o subsídio social de desemprego inicial são pessoas que não trabalharam (com descontos para a Segurança Social) o tempo suficiente para aceder ao subsídio de desemprego "normal" e que, simultaneamente, vivem em agregados familiares pobres, com um rendimento per capita inferior a 326 euros, no limiar da pobreza. Quatro em dez beneficiários têm idades compreendidas entre 20 e 34 anos - tipicamente, são jovens que não viram renovados os seus contratos a prazo (muitas vezes a seis meses ou a um ano). O crescimento do número de pessoas que vive desta prestação é, assim, um importante indicador que reflecte um agravamento da precariedade dos contratos de trabalhos. Pobreza antes e depois da atribuição do subsídio já que o valor da prestação paga é muito baixo e independente do salário anteriormente declarado, oscilando entre 326 e 407 euros, enquanto o subsídio normal pode chegar a 1221 euros.

Sábado, 22 de Março, Dia Mundial da Poesia

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( da página nacional do MIC )
Poema de Manuel Alegre

A nossa homenagem ao poeta e Presidente do Conselho de Fundadores do MIC, um poema de Manuel Alegre para todos lerem, poema actual e cheio de sentido, associando-se o MIC desta forma ao Dia Mundial da Poesia.

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

2008/03/15

Alegre recusa celebrar três anos de Governo



JOÃO PEDRO HENRIQUES
(Hoje, no DN)

Alegre diz que manifestações "ultrapassam PC"

Manuel Alegre considera que a contestação social "ultrapassa em muito" as mobilizações partidária e reflecte um "mal-estar muito mais profundo" do que se imagina.

"Os aparelhos partidários não conseguem perceber o que se passa com as pessoas. Isto [as manifestações] ultrapassa muito os partidos. Vai muito além do PCP", diz o ex-candidato presidencial . Que acrescenta uma frase enigmática, podendo querer dizer que no seu entender há espaço para representar quem hoje não se sente representado: "O que eu sei é que a política, como a natureza, tem horror ao vazio."

Ou por outras palavras: "As pessoas que hoje vão às manifestações não estão satisfeitas nem com o Governo nem com a oposição."

Hoje Manuel Alegre faltará ao comício com que, no Porto, o PS celebrará três anos do seu governo. Não explica a ausência ("não tenho que dar explicações"). Mas contesta vivamente quem considera que o actual momento político está bipolarizado entre o PS e o Governo, por um lado, e o PCP e os sindicatos, por outro. "Isso é redutor, é uma visão redutora alimentada por alguns políticos e por alguns jornalistas".

Foi Vital Moreira, o mais militante dos apoiantes independentes do PS, quem, no seu blogue, Causa Nossa, ressuscitou o fantasma do confrontos entre o PS e o PCP nos anos idos do Período Revolucionário Em Curso (vulgo, PREC): "Não creio que [para o PS] seja inevitável, nem sequer desejável, desencadear um 'confronto com o PCP' à maneira de 1975."

Alegre contesta esta visão e sublinha que "quem diz isso não sabe o que diz". "O PREC [Período Revolucionário em Curso] foi um momento revolucionário. Quando havia uma manifestação com cem mil convocávamos outra com outros cem mil. Ou mais. Não é isto."

Falando ao DN, o politólogo António Costa Pinto também contestou que o momento político seja uma espécie de regresso ao passado do PREC. Por isso censura o discurso de "estigmatização do PCP" que, no seu entender, tem vindo a ser "alimentado por algumas elites do PS"

Para o politólogo, a iniciativa de um comício organizado pelo PS para celebrar os três anos de Governo é errada. "Concordo com quem diz que é muito defensiva", diz, acrescentando que "o eleitorado do PS não é muito sensível à ideia" de comícios. De acordo com o mesmo opinion-maker, o que o PS está a fazer é "alienar" votos à sua esquerda, sendo isso no seu entender "indispensável" se o objectivo for renovar a maioria absoluta em 2009. "Se o PS quiser a renovação da maioria absoluta vai ter de se reconciliar com o núcleo duro do seu eleitorado", afirmou.

A ideia do PS de celebrar a governação com um comício - inicialmente esteve pensado um jantar, desmarcado porque coincidia no dia com a "marcha da indignação" dos professores - tem sido contestada pela ala esquerda do PS.

Medeiros Ferreira, afastado nas últimas legislativas da Assembleia da República, disse no seu blogue (bichos-carpinteiros.blogspot.com) que o partido "fez mal em responder com um comício às manifestações de rua dos professores".

Já no Diário Económico, Pedro Adão e Silva, ex-membro da direcção do PS no tempo de Ferro Rodrigues, admitia a sua "perplexidade" com a iniciativa. "No momento de mais intensa contestação de rua à sua acção, o Governo procure responder à rua com rua. (...) Só pode ser vista como sinal de alguma desorientação". No artigo, o ex-dirigente argumentou que só em momentos excepcionais o PS foi um partido de massas.

2008/03/13

Certificados de Aforro

no PÚBLICO de hoje
Deputados do PS pediram explicações

Requerimento é assinado por 30 deputados

As alterações realizadas pelo Governo ao nível dos certificados de aforro estão a dividir o próprio Partido Socialista (PS) e um grupo de 30 deputados já apresentou um requerimento a solicitar ao primeiro-ministro esclarecimentos sobre as alterações efectuadas. A notícia da apresentação deste pedido de explicações foi dada pelo Semanário Económico no passado dia 7 e, segundo o jornal, entre os signatários do requerimento estão a deputada Leonor Coutinho, Manuel Alegre e António José Seguro. No pedido de esclarecimentos, os deputados criticam o facto de o Governo liderado por José Sócrates alterar as regras do jogo a meio do percurso. "Não é compatível com a confiança que os aforradores depositaram no Estado", criticam os deputados. Os signatários chegam a comparar a medida com as más práticas bancárias que têm vindo a ser denunciadas e corrigidas pelos órgãos reguladores e pelo próprio Governo. A Sefin - Associação Portuguesa de Consumidores de Produtos Financeiros - considerou as alterações ilegais.

2008/03/09

A revolta dos professores


Editorial da página do MIC Nacional ( 7/3/2008) - www.micportugal.org

Como nos escreveu Maria Amélia Campos, a escola pública não é hoje uma escola de elites, mas de massas, que se pretende integradora e inclusiva. Muitas vezes, acabam por ser os professores a procurar corrigir desvios sociais que não lhes competem, como pagar, do seu bolso, alimentação a alunos com fome.
Os professores não são operários numa linha de montagem, nem a escola é uma fábrica a trabalhar de empreitada numa concorrência desenfreada, para atingir “melhores resultados”, nem tão pouco os alunos são roscas e parafusos, para atarraxar como calha.
Há um enorme aventureirismo nas medidas que o governo quer impor à força. Não se podem decalcar reformas educativas de outros sistemas para o nosso, sem primeiro as estudar e fasear.
Mas eles não entendem, nem querem entender. Estão convencidos que são o Estado, que são a Lei, que são a Escola. Ainda não perceberam que não têm nenhum “mandato divino” para exercer o Poder em nome do Povo.
Os protestos sucedem-se. Nunca nenhum governo democrático conseguiu provocar tamanha unidade dos docentes contra as suas políticas educativas. Os ataques sistemáticos à dignidade profissional da classe docente, culminando no modelo iníquo de avaliação de desempenho e no novo modelo de gestão, levaram à unidade progressiva dos professores e à tomada de consciência que está em marcha uma “reforma” subordinada a uma agenda política oculta. O principal alvo é a escola pública e a qualidade do ensino, para abrir caminho aos negócios privados, tal como tem vindo a acontecer no sector da saúde.

2008/03/07

Manifestação de professores

Alegre exige que Governo explique polícias nas escolas

[Andreia Félix Coelho, Sol, 07-03-2008]
O histórico socialista Manuel Alegre assina hoje um editorial no seu site em que exige explicações ao Governo sobre a visita de dois agentes da PSP ontem à escola Ourém, notícia avançada SOL. «É preciso saber quem foi, quem mandou e para quê», diz Alegre

«A ida da polícia a várias escolas em vésperas de uma manifestação nacional de professores tem de ser rápida e cabalmente esclarecida, exige Manuel Alegre no seu site.
«Não bastam explicações administrativas, exige-se uma resposta política de acordo com a tradição democrática do Partido Socialista e sem transferência de responsabilidades de cima para baixo», refere o socialista.
Sublinha ainda Alegre que, «caso contrário, algo não estará certo nesta democracia, pela qual somos todos responsáveis. Sobretudo aqueles que por ela lutaram e aqueles a quem, como aos órgãos de soberania e, em especial, ao senhor Presidente da República, cabe garantir os direitos e liberdades dos cidadãos».

2008/03/04

O direito ao pessimismo

Sérgio de Andrade, Jornalista, escreve no JN, semanalmente às terças-feiras

É bom verificar que, eventualmente, nos partidos políticos (tão mal cotados na opinião pública), aparece quem não sacrifique tudo à necessidade de conseguir o poder, absoluto de preferência. Mesmo no PS, que, pobre dele, é obrigado a engolir capítulos do seu programa eleitoral (para bem de nós todos, pois!), encontra-se um António José Seguro, o único que votou contra o "não" ao referendo sobre o Tratado Europeu. Ou Manuel Alegre, que ainda vai dizendo algumas verdades incómodas. Ou Ana Gomes, aparentemente a única socialista que sabe que a CIA voa.

E Almeida Santos, que, depois de um período de fulgor na primeira linha do combate político, entrou num ocaso de que saiu recentemente, ao receber o grau de doutor honoris causa em Coimbra. Porque, então, o velho e fogoso tribuno lembrou um direito de que por vezes nos esquecemos o direito ao pessimismo. E não pode deixar de ser-se pessimista quando há que reconhecer que, enganados pelo canto de sereia da globalização "sem regras imposta" pelos Estados Unidos, acabámos por contribuir para chegarmos a um ponto - ele o frisou - em que "nunca houve tantos pobres, tantos analfabetos e tantos desempregados".

Só agora ("mea culpa"...) descobri que temos em Portugal uma Rede Antipobreza, que se esforça por atenuar o drama de 20% da população, pobre para além do que seria tolerável. Isto num país em que, por outro lado, há quem seja rico, muito rico mesmo. Os bancos ganham 6,3 milhões de euros por dia - os quatro principais privados uma média de 263 mil por hora. As seguradoras obtiveram em 2005 lucros de 532 milhões. No Parlamento, o Bloco de Esquerda mostra uma grande fotografia de um gestor e uma minúscula fotografia de um trabalhador, para marcar a diferença entre o que um e o outro auferem - e o ministro das Finanças responde-lhe com o argumento de que o talento se paga.

Infelizmente, não temos, nós, a maioria esmagadora, o talento dos bancos, das seguradoras e dos gestores, privados e até públicos. Pelo que nos resta o direito à indignação - ou, pelo menos, e como propôs Almeida Santos, o direito ao pessimismo. Este, disse-se então, é "afinal uma forma de lutar por um Mundo melhor". Assim sendo, e dado que o pessimismo entre nós atinge níveis alarmantes, devemos estar no bom caminho para um Mundo melhor.


2008/03/02

PS cerra fileiras em defesa da ministra, mas ala esquerda não lhe dá grande futuro


[PMF, LUSA, 01-03-2008] |
A maioria dos deputados socialistas considera que a ministra da Educação reúne condições políticas para cumprir o seu mandato até ao fim, mas a ala esquerda do partido critica-a e suspeita que a corda "pode quebrar".

"Não sei até onde a corda aguenta esticar, mas ela pode quebrar. Gostaria, por isso, que houvesse um sinal e um sinal socialista só pode ser o do caminho do diálogo", declarou à agência Lusa a deputada do PS Teresa Alegre Portugal, comentando o actual ambiente político em torno da ministra da Educação.
Luís Fagundes Duarte, tal como Teresa Alegre Portugal deputado da Comissão Parlamentar de Educação, apresenta uma perspectiva diametralmente oposta sobre o futuro político de Maria de Lurdes Rodrigues.
"A ministra da Educação tem todas as condições para cumprir o seu mandato até ao final da legislatura. Maria de Lurdes Rodrigues tomou medidas impopulares para alguns sectores, mas essas medidas tinham que ser tomadas", sustentou o deputado socialista, defendendo uma tese idêntica à da maioria dos elementos da bancada do PS.
Luís Fagundes Duarte rejeitou também qualquer semelhança entre o processo que levou à exoneração do ex-ministro da Saúde Correia de Campos e o actual ambiente de contestação em relação à titular da pasta da Educação.
"A ministra da Educação tem toda a solidariedade do Governo e da esmagadora maioria dos socialistas, porque está actuar de acordo com o programa do Governo, que foi sufragado pelos portugueses nas últimas eleições", apontou.
Embora apresente razões distintas face aos argumentos invocados por Luís Fagundes Duarte, também o presidente do PS/Setúbal, Vítor Ramalho, discorda que existam analogias entre o processo que levou à queda de Correia de Campos e a actual situação da ministra da Educação.
"Enquanto na saúde os protestos foram localizados e envolveram utentes, na educação estamos perante uma reacção corporativa e organicamente unitária", advogou Vítor Ramalho.
No entanto, para este apoiantes da corrente socialista ligada a João Soares, nem por isso o desafio da ministra da Educação é mais fácil do que aquele com que se confrontou o Governo no sector da saúde.
"Na saúde, os protestos foram localizados geograficamente e também em relação às suas causas (encerramento de maternidades ou de serviços de urgência). Na educação, os protestos não têm a ver com a escola A ou B, mas com a classe dos professores em geral", disse.
Ou seja, segundo Vítor Ramalho, a ministra da Educação "está confrontada com um exército muito mais unido do que aquele que enfrentou Correia de Campos".
Apesar de considerar que Maria de Lurdes Rodrigues tem condições para cumprir o seu mandato até ao final da legislatura, Vítor Ramalho entende que a margem de manobra da titular da pasta da educação é muito limitada.
"Na saúde é mais fácil adaptar a reforma. Na Educação, a ministra cumpre ou não cumpre aquilo a que se propôs", acrescentou.
Vítor Ramalho demarcou-se ainda do discurso oficial do Governo quanto aos motivos inerentes aos protestos dos professores contra a ministra.
"Não estamos somente perante uma reacção sindical. Há uma reacção corporativa dos professores com uma base alargada", referiu.
Pelo contrário, Luís Fagundes Duarte defendeu que os protestos têm na sua origem "leituras de dados enviesados, como é o caso da contestação à avaliação dos professores".
O deputado socialista dos Açores reconheceu apenas a existência "de problemas de ordem técnica" por parte do Ministério da Educação, no que concerne à aplicação das medidas no terreno.
Teresa Portugal, irmã do ex-candidato presidencial Manuel Alegre, disse encarar "com grande preocupação a situação criada em torno das questões da Educação".
"A escola é por definição um local de paz e tolerância e os professores são o corpo desses valores", salientou, antes de deixar um recado.
"Tenho comigo a imagem conhecida de um professor checo que, prisioneiro num campo de concentração, conseguiu aí fazer um simulacro de escola para as crianças aí também prisioneiras e transformou aquele local de inferno num espaço de sobrevivência, de que resta um comovente caderno de poemas e desenhos infantis sobre a liberdade", declarou.
Ora, de acordo com Teresa Portugal, com a política da ministra da Educação "instalou-se uma guerra, gerada sobre um clima de crescente conflitualidade".
"Quebraram-se os laços. De um lado temos os professores, que se sentem atingidos na sua dignidade profissional, e do outro a ministra que, convicta de que o futuro da escola pública depende da sua reforma, não vacila na sua aplicação", justificou a deputada socialista.

"Poesia" de Obama inspira americanos para a mudança - Manuel Alegre


Estados Unidos[CSS, RTP/LUSA, 29-02-2008]

O poeta Manuel Alegre disse hoje que "o tom poético do discurso" do pré-candidato presidencial democrata Barack Obama tem inspirado um movimento de mudança na sociedade norte-americana, dando-lhe vantagem sobre a adversária do mesmo partido Hillary Clinton.

"A palavra poética volta a ser necessária", defendeu o dirigente socialista e ex-candidato à Presidência da República à revelia do PS, frisando que "a inspiração das palavras", que Obama suscita junto do eleitorado dos Estados Unidos, pode "levar a uma mudança".

Manuel Alegre intervinha em Coimbra, numa sessão da Comunidade de Leitores da Almedina Estádio, uma iniciativa da editora em parceria com o Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a docente Ana Paula Arnaut e a empresa de comunicação Ideias Concertadas.

O autor de "Praça da Canção" respondia a uma pergunta do historiador Luís Reis Torgal sobre "o papel da poesia na sociedade em que vivemos", em especial na sua relação com a política.

"Há ali um discurso de mudança", afirmou, realçando a importância para o futuro da América da disputa em curso entre Hillary e Obama.

Na sua opinião, "pode-se preparar um discurso político como quem faz um poema".

Elogiando a capacidade de Barach Obama se dirigir aos americanos num "tom poético", Alegre observou que o candidato negro do Partido Democrata está "a criar uma onda de mudança".

"O discurso novo que ele trouxe tem algo a ver com a poesia", acrescentou.

Para Manuel Alegre, os dois pré-candidatos democratas "estão a dar à Europa uma extraordinária lição de democracia", através dos discursos, mas também por se tratar de um negro e uma mulher na pugna pela presidência da pátria de Lincoln.

"Muita gente votou também em mim por eu ser um poeta, expressando uma necessidade de poesia, esperança e sonho na política", comparou o ex-candidato à Presidência da República de Portugal.

Questionado pela agência Lusa, Manuel Alegre, para quem a poesia corresponde a uma "um jogo encantatório" com as palavras, confessou que não gosta de ouvir os seus poemas declamados por outras pessoas.

"O actor quebra, teatraliza. Não gosto de ouvir a minha poesia dita por actores", sublinhou.

Para o poeta, natural de Águeda e ligado afectivamente a Coimbra, vice-presidente da Assembleia da República, "todos os poetas gostam de ler a sua poesia".

O professor universitário Abílio Hernandez, amigo de Alegre e antigo presidente da Coimbra 2003 - Capital Nacional da Cultura, salientou que Ulisses, herói grego da "Odisseia", é "uma figura que tem a ver" com a sua poesia.

"Tal com o poeta procura o verso que nunca há-de encontrar, também Ulisses regressa a Ítaca como mendigo", confirmou o autor de "Um Barco para Ítaca".